A pesquisadora do NEU/USP Cláudia Serathiuk concedeu entrevista à Folha de S.Paulo (25/7) sobre seu trabalho de atendimento psicológico, on-line, a brasileiros que foram lutar na Guerra da Ucrânia — e às famílias dos que morreram no conflito.
Psicanalista e psicóloga, mestre em Psicologia Clínica pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e neta de ucranianos, Cláudia integra o NEU/USP e a Rede Interamericana de Pesquisas em Psicanálise e Política (RedIPPol). A pedido de uma ONG de auxílio a brasileiros na Ucrânia, passou a atender combatentes no ano passado e organizou um grupo de cinco psicólogos para acolher familiares de brasileiros mortos. A experiência será a base de seu doutorado.
Na entrevista, ela relata o impacto dos atendimentos — combatentes em estresse pós-traumático, hipervigilância e medo de morrer — e as dificuldades práticas das famílias dos mortos. Seu argumento central é que a decisão desses jovens tem mais a ver com o Brasil do que com a Ucrânia: a maioria não tem ascendência nem vínculo com a comunidade ucraniana e busca reconhecimento social, pertencimento e uma certa performance de masculinidade, num contexto de valorização do militarismo e de recrutamento amplificado por redes sociais e algoritmos — uma “estética de guerra” que transforma o conflito em espetáculo no Instagram e no TikTok. Segundo estimativas da comunidade citadas por ela, cerca de 2.000 brasileiros teriam se alistado no Exército ucraniano, com cerca de 200 mortos; até 10 de julho, o Itamaraty contabilizava 86 desaparecidos e 33 mortos.
A entrevista conecta a atuação do NEU a uma dimensão pouco documentada da guerra — a participação e o sofrimento de brasileiros no front — e antecipa uma pesquisa de doutorado sobre motivações que cruzam militarismo, redes sociais e falta de perspectiva no Brasil.